O economista Paulo Guedes, por meio de um artigo publicado pela revista Época, faz uma interessante reflexão sobre o setor educacional brasileiro.
Segundo ele, “o setor não escapará de sua reinvenção por estratégias de oceano azul.” Para W. Chan Kim e Renée Mauborgne, existem dois tipos de águas, os mares vermelhos que são banhados por sangue de disputas pelas fatias do mercado por meio de guerra de preços; e o oceano azul, que por meio do desenvolvimento de novos produtos, “torna o competidor irrelevate”, e atrai novos públicos.
Portanto, de acordo com esse raciocínio, a solução para a crise do setor está no desenvolvimento de estratégias apoiadas em novas tecnologias, o que seria “muito mais eficaz que a guerra de preços entre companhias semelhantes”.
O fato é que algumas instituições de ensino superior parecem ter assimilado que a guerra de preços os levará a um “banho de sangue”, e apostam em diferentes produtos para atraírem públicos dos mais diversos; como o caso do ensino a distância.
Confira o artigo:
O circo da inovação
O Cirque du Soleil, que acaba de estrear no Brasil, provoca interessantes reflexões sobre estratégias empresariais. “Em menos de 20 anos, o Cirque du Soleil obteve faturamento que o Ringling Bros e o Barnum & Bailey - os campeões globais da indústria circense - levaram mais de cem anos para atingir. O que torna ainda mais admirável essa rápida ascensão é que ela não foi obtida numa indústria atraente, e sim num setor em decadência, no qual as análises estratégicas tradicionais indicavam pequeno potencial de crescimento. As crianças hoje preferem videogame, e os adultos, formas alternativas de lazer”, afirmam W. Chan Kim e Renée Mauborgne, na obra A Estratégia do Oceano Azul: Como Criar Novos Mercados e Tornar a Concorrência Irrelevante, de 2005.
“A indústria circense sofria persistente declínio de audiência, de receita e de lucros, e havia também um sentimento crescente contra o uso de animais. O circo tornava-se completamente desinteressante”, dizem os autores. O Cirque du Soleil deixou de lado a competição tradicional. Recusou-se a perecer em versões de menor escala, com menores preços e franca decadência nas periferias das cidades. Criou, em vez disso, “um indisputável espaço novo que tornou os competidores irrelevantes”. Atraiu novo tipo de público, composto não apenas de crianças, mas de adultos e clientes corporativos, cobrando preço várias vezes maior que o do circo tradicional por uma experiência de entretenimento sem precedentes.
Para criar uma estratégia empresarial, segundo W. Chan Kim e Renée Mauborgne, podemos navegar em dois tipos de água. Há os mares vermelhos das sangrentas disputas de fatias de mercado em indústrias já estabelecidas, por meio de guerras de preço. E há oceanos azuis, que tornam o competidor irrelevante pela criação de novas indústrias e pela atração de novos públicos. O sucesso decorre da segunda opção. “Existem várias forças que tornam a busca de oceanos azuis um imperativo da estratégia empresarial. O avanço tecnológico acelerado permite um arranjo sem precedentes de produtos e serviços alternativos. E a globalização acelera essa tendência, pois as informações do mercado tornam-se instantaneamente disponíveis, homogeneizando produtos e serviços, aumentando a guerra de preços e encolhendo as margens de lucro. O mar vermelho torna-se cada vez mais sangrento pela batalha da redução de preços.”
É a destruição criadora de Joseph Schumpeter, exposta na obra Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1942: “A competição que conta é a do novo produto, da nova tecnologia, do novo tipo de organização empresarial. É a competição que atinge não apenas a produção e as margens de lucro das companhias existentes, mas principalmente seus alicerces e sua própria sobrevivência. Esse tipo de competição é muito mais eficaz que a guerra de preços entre companhias semelhantes”.
A globalização dos mercados e a revolução na tecnologia da informação deflagraram um processo schumpeteriano de destruição criadora nos últimos anos. A reestruturação e a consolidação dos setores industriais e de serviços tornam-se um fenômeno irreversível no mundo contemporâneo. A avalanche de fusões e aquisições reflete a busca simultânea da ampliação de mercados e redução de custos, e o maior grau de concentração dentro de setores específicos é o corolário da revolução tecnológica, pois “as atividades de logística, distribuição e gerenciamento beneficiam-se de custos crescentes quando apoiadas na tecnologia da informação”, segundo escreveram os economistas Carl Shapiro e Hal Varian, em A Informação Predomina, de 1998.
As novas condições de competição tornam irresistível uma reflexão sobre o setor educacional brasileiro. O ganha-pão dos trabalhadores modernos depende fundamentalmente da indústria da educação. É ela que fornece o equipamento básico exigido pela sociedade do conhecimento. Mas a regulamentação inadequada e os choques sistêmicos sucessivos criaram um mar vermelho em que se afogam as empresas educacionais públicas e privadas. O setor não escapará da consolidação em busca de custos decrescentes por economias de escala. Ou de sua reinvenção por estratégias de oceano azul.
PAULO GUEDES
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